domingo, 13 de junho de 2010

Visita

Ainda bem que não chovia naquela manhã.

Ao levantar-se da cama, deu-lhe bom dia em pensamento, beijou-o no porta-retrato do criado-mudo e tratou de se arrumar.

Era de sua natureza. Queria estar sempre bonita e perfumada. Mais, ainda, naquele dia doze, data tão especial!

No caminho, sorria das lembranças boas e afastava as más. Ah! Como gostaria que estas não existissem!

Quando, enfim, chegou, ficou longamente a olhá-lo ali, em silêncio, e, depois, com o carinho de sempre, ajeitou as flores na sepultura e começou a lhe contar como fora sua semana.

Animais

No vagão do metrô, divertia-se com a fisionomia das pessoas.
O velhote que cochilava lembrava-lhe muito um urso de pelúcia e a moça ao lado, com seus enormes olhos pacatos, era uma ovelha perfeita.
No banco da frente, o japonês era um peixe. Só faltava borbulhar.
Já a executiva de tailleur, com seus cabelos loiríssimos frisados, parecia um poodle, recém saído do pet shop.
Podia-se jurar que a austera senhora era uma ave. Uma águia ou um tucano?
E o Office boy, que não parava de mudar de assento, denunciava facilmente sua natureza símia.
Por um instante, pôs-se a pensar em que bicho ele próprio seria, mas não conseguia se imaginar nenhum.
A resposta veio somente à noite, com um beliscão da namorada.
Foi chamado expressamente de galinha.

O Capeta

Ao desembrulhar o bombom, o menininho colocou o papel, com invejável rapidez, no capuz do casaco do irmãozinho.

A reação foi imediata e chorosa:

- Manheeeê! Olha o "Fabo otra veiz"!

Descontrolada, a mãe deu um tabefe no mais velho e ralhou:

- Fabinho! Deixa teu irmão em paz! Que inferno!

Só então deu-se conta de que se encontrava na sala de espera do consultório e tratou de se justificar com a moça sentada a seu lado:

- Esse menino é o capeta. Não me dá sossego um minuto.

A moça simplesmente sorriu e, olhando com simpatia para a lágrima que rolava naquele rostinho inocente, ficou imaginando como seria um anjinho de chifres.

Ninguém é perfeito

Ninguém, antes dele, a tratara com tanta delicadeza e amor.
Flores inesperadas, presentes em profusão, palavras de carinho, provas de dedicação, tudo para fazê-la sentir-se uma verdadeira princesa.
Ria de suas graças e não se cansava de dizer que não havia mulher como ela.
Charmoso e maduro, de aparência interessante e ótima condição social, ainda adorava dançar, freqüentar bons restaurantes e viajar.
Para completar, era atencioso e gentil para com toda sua família.
Pena que escrevia jeito com gê!

Álbum de Família

Na foto de família, todos estão sorrindo, menos o bebê, que hoje é médico numa aldeia de índios.

A menina, ainda novinha, casou-se com um militar reformado e foi morar no Sul.

Logo que a filha se casou, a mãe acabou partindo com o dono da locadora.

Alcoólatra e desempregado, o irmão mais velho mal conseguia acompanhar, ontem, o enterro do pai, consumido pelo câncer.

Só a avó, com Alzheimer, continua com o mesmo sorriso.

Desnutrição

A moça remexia desanimada as folhinhas de agrião em seu magro prato de salada.

Há dois anos não emplacava um namorado. Sabia que não era feia. Pelo contrário. Cuidava, com afinco, de sua aparência, malhando todos os dias, privando-se de calorias e gastando quase dois terços de seu salário em roupas e comésticos.

Foi então que, esperançosa, avistou o bonitão de terno e gravata que, por vezes, freqüentava o restaurante.

Desta vez, ele parecia esperar alguém, que, em menos de cinco minutos, chegou.

Totalmente embevecido, o homem apressou-se em receber a mulher de meia idade, de carnes e sorrisos fartos e, em invejável enlevo, puseram-se a trocar olhares de explícita felicidade, entremeados de discretos toques de carinho e pequenas gentilezas.

Tudo neles transpirava prazer e encantamento, alegre e avidamente comemorados com chope gelado, filé à parmegiana e uma generosa porção de batatas fritas.

Sentindo-se desnutrida, a moça afastou lentamente o prato repleto de talos verdes e pediu ao garçom um "sunday" de chocolate.

Sedução

Enquanto esperava o sinal abrir, ela percebeu que aquele homem oferecia, sem dizer uma palavra, toda sorte de bonequinhos infláveis, flâmulas e canequinhas com distintivos de times de futebol.

Eram objetos sem nenhuma utilidade e de extremo mau gosto, ali promovidos, única e silenciosamente, pelo largo sorriso de dentes alvíssimos e pelo olhar de doçura ímpar, a iluminar, ainda mais, aquelas lustrosas bochechas negras.

A buzina do carro de trás não demorou a apressar a bizarra negociação e a moça, mais que depressa, arrematou três garotas superpoderosas vestidinhas com a camiseta do Corínthians.